sábado, 10 de febrero de 2007

RUI COSTA

















Mencionado por:
Inmaculada Luna

Menciona a:
José Ángel Cilleruelo
Fernando Esteves Pinto
Henrique Fialho



Bio-bibliografía

Rui Costa nació en Oporto en 1972. Fue uno de los vencedores del Concurso Jovens Criadores/97, del Clube Português de Artes e Ideias. En Mayo de 2005 publicó “A Nuvem Prateada das Pessoas Graves” (Quasi Edições), libro vencedor del Prémio de Poesia Daniel Faria 2005. Participa en la antologia “Poema Poema – Antologia de Poesia Portuguesa Actual” (U. Stabile, Huelva, 2006)
Participa en el blog Insónia (http://www.antologiadoesquecimento.blogspot.com).




Poemas


BAR DO ACASO

Escrevo, decerto, por qualquer
razão inútil que não vais nunca entender.
Surgem as frases, vês, desconhecidos
que no bar do acaso encontro e são
as tuas mãos a escrever por mim.

Minto-lhes, digo que só te amo
a ti, eles riem e pedem-me pra ficar,
que sim, que a noite ainda é uma pequena
musa no breve altar venal do coração.
Fico. Dou à boca o jeito do cigarro

e é em fumo que transformo o corredor
de imagens, metáforas, pequenos desvios de
ritmo mais pobre ou queda sempre a pique
em sentido nenhum. Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.



A MÚSICA

A música partilha com a flor
a carne que se alaga como um copo.
A música é um rizoma atómico
cheia de sílabas grossas e finas
no peito maduro da onda.

Por isso a onda cai e a flor
também. E se te digo sei que ficas
triste e é quando substituis essa
geração de força por dois pequenos
vasos à entrada do teu dorso (e qual
és tu e qual sou eu é uma haste subindo)

Do teu lado esquerdo é dia.
O vestido é branco e aponta
a cidade a que chegas com os
dedos, rodando os ombros mas
não a cabeça. O teu olhar
é uma ferida musical sem verbo fixo:
a penumbra bate às vezes na
pálpebra, outras na imaginação.

A queda gera o seu próprio
impulso, como se fosse o preen-
chimento de uma forma: chama-se amor
e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar
do desejo, esses versos de asa silenciosa-
ouves?

Há poetas azuis que julgam que a
coerência é um pardal azul (da goela
até aos pés). Normalmente limpam os óculos
com coerência, em vez de com (enfim)
e depois vêem o mesmo pardal, a todas
as horas do dia e da noite, sentado azul-
mente sobre o seu nariz azul.

Pela direita, dizes que os versos
não caem se mudares constantemente
o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-
ção do vento sabe do remorso dos bichos mais
pequenos: procura as palavras junto ao chão
e se não me vires,
é porque o silêncio é também a música
e canto-a sem nome
para ti




ETERNIDADE

uma cabeça caminha à procura do seu corpo.
Leva arenques nas mãos, pernoita muitas vezes.
Algumas crianças passam e sopram-lhe nos olhos,
fica prostrada feliz quase incandesce um pequeno
fogo no lóbulo dos joelhos. Se isso acontecesse dir-se-ia
amor. Se isso acontecesse amor subindo desde o chão,
ensinando os dedos da mão a praticar o lugar do objecto.
do amor. As pernas aquecem mais rapidamente que as
mãos. Começam a caminhar cada uma por sítios diferentes,
se isso acontecesse ao fim de muito tempo encontravam-se
e tentavam procriar, amando-se cada vez mais, ao alto e em
baixo, encostadas a ventres de ocarina. os dragões pedem que os
matem, os dragões dragam aspiram pelo nariz as drogas e
na verdade precisam do mundo pelo cu. isto não é uma palavra,
é uma carta umbilical por onde o mundo, incluindo
o aparelho digestivo/ fígado/ rins/ circulação/ consciência disso
atónita/barbatanas peitorais/do peixinho amarelo/meu
primeiro amor. A cabeça disto procura lugares para deixar
as mãos, aquece o olhar o ar mordido, o barro antes
da fúria, escura, de um ventre em lama, roto, claro,
sexo, rotativo, nascendo!
A última frase é demasiado lírica para pertencer ao poema.
É preciso retomar a calma, consagrar a vida
aos ossos. Desculpa.


Rui Costa

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