sábado, 24 de febrero de 2007

FERNANDO ESTEVES PINTO






















Mencionado por:
Rui costa


Menciona a:
Josefa Virella Trinidad
João Bentes
Pedro Afonso
Maribel Sánchez-Pagán






Bio-bibliografía

Nasceu em Cascais em 1961. Colaborou no DN Jovem e no Jornal de Letras. Em 1990 recebeu o Prémio Inasset Revelação de Poesia Do Centro Nacional de Cultura. É publicado em Espanha e Portugal por revistas literárias e editores independentes. Em 1998 obteve uma bolsa de criação literária pelo Ministério da Cultura/Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. Está representado em várias antologias. Co-fundador do “Sulscrito” – Círculo Literário do Algarve. Autor do Blogue: www.escritaiberica.weblog.com.pt

Ha publicado:
- Na Escrita e no Rosto (poesia) Editora Europress
- Siete Planos Coreográficos (poesia, edição bilingue) Editora 1900, Huelva
- Ensaio Entre Portas (poesia) Editora Almargem
- Conversas Terminais (romance) Editora Campo das Letras
- Sexo Entre Mentiras (romance) Editora Leiturascom.Net



Poética

Nunca permaneci tão profundo e submerso
em pensamentos que se estendem até ao indizível.
Penso para ser presença onde o silêncio é excesso
e levíssima a palavra cristalina.





Poemas



A escritora

Quando decidiu ser escritora nunca pensou ser devorada pelos livros que escrevia
A inspiração procurava o lixo em centros comerciais
Marcas de inutilidades em produtos pouco humanos
Também era presença onde a solidão dava espectáculo
Entre amigos produzidos por uma afectividade perturbada
Vestia nas melhores lojas ao preço de palavras mal empregadas
E nenhuma frase dos seus livros era peça única
Fazia combinações de pensamentos como quem preenche uma segunda via
De um documento emocional pedido num departamento criativo
Os romances trajavam a rigor de imitação
Com personagens maquilhados de inteligência publicitária
Nas sessões de autógrafos exibia o cartaz da amabilidade
Instalação orgulhosa para leitores infelizes
Que procuravam nas suas obras o entulho e o desperdício
Pormenores de vida que se liam como regra de desconforto
No jogo leve da literatura de oferta e aniversário
Os críticos literários mantinham-na em cativeiro no curral da indiferença
Longe das questões universais e das páginas do orgulho impresso
Por vezes o seu nome trazia alguma luz
Quando a forma de existir no meio intelectual
Lhe exigia custos de imagem e profundidade
Estudos ridicularizados pela gestão danosa de críticos habilidosos
Na humilhação da visibilidade negativa
Utilizando leis de improviso na magia da auto-ostentação
Escrever sobre a sua obra garantia a exposição por efeito contrário
Tornando-se objecto esplêndido a interminável mediocridade
Inocência popular julgada pelos cabeçalhos da ditadura crítica
Numa encenação débil e tendências amavelmente conflituosas
Mas ela escrevia sempre na esperança perdoável das suas qualidades
Tão dolorosamente brilhante que iluminava nos outros
O que ela nunca sentira como verdadeiro







A casa de belo-amor

Nunca uma casa destruiu tanta gente
triste e traiçoeira entre as laranjas que caem nas areias
uma máquina amarela escava feridas para ganhar dinheiro
uma pá de areia em troca por uma lata com motor
anda bem nas descidas sem precisar de ajuda
como os sonhos do pintor que pendurava os quadros todos ao contrário
e os pincéis secavam hirtos como palitos a estalar
também aqui o tempo abre fissuras para nada
entre os cães que não sabem ladrar e os cavalos que morrem na passarela
verdejante
as palavras do proprietário cresciam como ervas na cabeça dos visitantes
era esse o castigo se alguém demorasse por ali mais que o sol a morrer
as cervejas saltavam das grades frigorificas
para congelar a ilusão das conversas repetidas
a literatura era um bordel de putas com o esquema do dinheiro a dar uma de
poético
a pintura era tema proibido pela tela branca
nunca a inveja pintou tão bem em tons de desespero
um cão faria melhor se misturasse um jacto de urina na consciência de alguma cor
as meninas de belo-amor perderam-se na paisagem à volta das ruínas
onde noutros tempos nasciam flores nos vestidos de alças que cobriam os corpos
limpos
era o amor em estação de grandes descontos afectivos
amava-se a erva que provocava urdidura no coração
vinham forasteiros esfarrapados com meia dúzia de conversas como pagamento
em noites de meia idade e fodas em conjunto
à volta de um fogo artificial alimentado por achas de mentiras
tipo bonecos de palha no pavor de uma fagulha de verdade
não havia compromisso porque o lado humano da questão esguichava como sémen
sem a intenção emocional das relações românticas
e os dias eram folhas de calendário antigo
varridas pelo tempo que azedava entre as pernas cruzadas numa esplanada em
forma de espelunca
lixo solitário trazido por amigos como oferta pobre e venenosa
para a grande inauguração da arte de viver concentrada na desgraça
com sorrisos de fome a fazer lembrar vaginas mal alimentadas
usando palavras para tapar a boca à ingenuidade do negócio
a arte a ser avaliada pelo buraco do cu dos visitantes
a sala esgotada pelo inédito da situação decadente
ferramentas que não conheciam a noção de trabalho
o velho pintor a posar ao lado da sua romana impaciente
de olhar combinado numa provável simpatia com a perversidade do momento
o que lhe passava pela cabeça é uma máquina registadora
com empréstimos de amizade a pagar com juros de infidelidade
nunca a integridade valeu menos que um quadro sem assinatura.







Imobilidade

O tempo é a esperança dos inactivos
uma cadeira de baloiço onde o pensamento adormece
atravessava os dias como se enchesse sacos de paciência
preciosidades existenciais para servir de cultura aos amigos
colecções de ódios sobre a mesa da discórdia
as razões que reclamava para si eram tão válidas como antiguidades falsas
tudo estava avariado na sua mente de relógio
os amigos escutavam-no na posição do ponteiro grande dos minutos
à volta das palavras que aprisionavam a temática da vida e do amor
sem a noção do tempo que os outros demoravam para desacreditar tudo o que ele dizia
não por medo mas por respeito pelo calendário das ideias apresentadas
muitas mentiras a brilhar nas folhas que protegiam do calor o pátio em ruínas
o sorriso da água a ouvir-se no silêncio de quem o escutavaa
verdade voava dali para fora num alívio de liberdade
tão pura como as aves que pousavam desconfiadas nos ramos da sabedoria humana
e ele falava para que o tempo fugisse com ele para sempre
porque seria o tempo o transporte da sua imobilidade crónica
o grande mestre da loucura que ele representava
em sessões de rotinas para criar tonturas nos dias que passamc
omo uma doença dizia ele como uma doença
chegavam os amigos e rodeavam-no com perguntas sobre o tempo
jovens mulheres com o ciclo do juízo atrasado
encantadas por verificar que o tempo é uma mente sem corpo
e depois sentiam-se abstractas e dominadas pelo artifício da lição
os corpos expostos numa expectativa burlesca
o tempo que ele sempre imaginara a ganhar forma humana
porque o tempo que marca as fases da sua vida são os outros
prisioneiros a serem amarrados com palavras num sufoco de atenção
nem esperança nem tempo numa cadeira de morte
em face dos seus esquemas de empreendedor em acções imaginárias
e o tempo a adormecer-lhe o corpo se um dia a sua mente o abandonasse.